• Mariana Dias

A mulher e a arquitetura

A cultura está mudando. Se hoje as mulheres, questionam, buscam a equidade entre os gêneros. Essa é herança daquelas que deram o primeiro passo à esta direção. A poucas décadas atrás, as mulheres tinham o papel de cuidar da casa e dos filhos enquanto o homem trabalhava fora para sustentar a família.

Nossa sorte que algumas foram além, questionando e se posicionando contra toda a cultura patriarcal tomando seu espaço. Uma das formas dessas conquistas é a inserção no mercado de trabalho. Mas será que isso é tudo? Elas foram e são reconhecidas como profissionais?

Na arquitetura há alguns exemplos de mulheres foram negligenciadas quanto à sua produção arquitetônica ou não reconhecimento do seu trabalho, ficando a sombra de seus parceiros, como ocorreu com Denise Scott Brow e ou ainda quando eram impedidas de cursar as disciplinas que queriam na Escola Bauhaus.

Esse foi o incômodo e ponto de partida do coletivo “Arquitetas Invisíveis”, projeto que vale a pena conhecer. As autoras perceberam que poucas arquitetas eram estudadas durante a graduação com o reconhecimento mundial e quiseram mudar essa realidade. No manifesto Mencionam o artigo publicado no The New York Times, “A maioria das arquitetas do sexo feminino ouviu as histórias de horror”: a ascensão de Mies Van der Rohe ao panteão dos mestres do Modernismo enquanto Lilly Reich morria na pobreza e anonimato. Le Corbusier vandalizando a Casa E-1027, obra-prima de Eileen Gray no Sudeste da França. Robert Venturi aceitando o Prêmio Pritzker em 1991, enquanto sua companheira e sócia Denise Scott Brown não foi nem citada”. E continuam:

Tendo em vista essa mudança de panorama e a falta de visibilidade (e representatividade) que as mulheres continuam enfrentando, o coletivo Arquitetas Invisíveis surgiu como uma ação para dar espaço e voz às geniais mulheres que são não só arquitetas, mas também artistas e representantes de um tempo. Mulheres merecedoras do nosso prestígio e dedicação, tanto por sua história de vida, quanto pelo excepcional trabalho que desenvolveram ao longo dos anos.
Temas do site e autoras do projeto.
Temas do site e autoras do projeto. - Fonte: arquitetasinvisiveis.com.br

A escola Bauhaus, inaugurada em 1919 por Walter Gropius que apesar de ter um discurso em que "qualquer pessoa de boa reputação, independentemente da idade ou do sexo" poderia se matricular em que não haveria diferenciação entre o “sexo belo e o sexo forte” essa equidade não se concretizou pois, após a matrícula, as mulheres eram direcionadas para oficinas de tecelagem, encadernação ou cerâmica e impedidas de participar de oficinas como de design, arquitetura e escultura exclusiva aos homens. Isto porquê o fundador entendia que as mulheres não tinham uma percepção tridimensional como a dos homens.

Entretanto Lilly Reich não aceitou essa condição. Ela não estudou arquitetura mas praticou as disciplinas artísticas como design atuando desde o início de sua carreira como designer industrial e na moda, trabalhou também em parceria com Mies van der Rohe. Desta forma rompeu barreira de gênero na escola e chegando inclusive a lecionar na mesma.

FONTE: https://goethebrasilia.org.br/blog/lilly-reich-a-designer-modernista/
FONTE: https://www.moma.org/calendar/exhibitions/278?

Outro caso em que essa situação é evidenciada a é a do casal Robert Venturi e Denise Scott Brown, tidos como a vanguarda do movimento pós moderno na arquitetura, apenas Robert recebeu o Prêmio Pritzker em 1991, o que causou polemica por anos.

Ela diz que “A arquitetura não pode forçar as pessoas a se conectarem, só pode planejar os pontos de passagem, remover barreiras e tornar os locais de encontro úteis e atraentes“, demonstrando a forma como atua e escreve sobre a profissão.

Em 2013, a Women In Design, uma organização estudantil da Escola de Design de Harvard, realizou uma petição online para pedir o reconhecimento retroativo do prêmio a Denise Scott Brow no qual foi negado. Em 2017, ela recebe o prêmio o Jane Drew, que reconhece o trabalho de profissionais que “elevaram o perfil das mulheres na Arquitetura”. Na ocasião a arquiteta reagiu com a seguinte colocação “Sou um pouco atordoada em relação a prêmios, como você pode imaginar, dada a minha história com eles. Mas aconteceram coisas que me fizeram muito feliz na minha velhice e uma delas é este prêmio”.

https://www.claudejobin.com/architects-robert-venturi-denise-scott-brown/
Vanna Venturi House 2005 - FONTE: https://www.claudejobin.com/architects-robert-venturi-denise-scott-brown/
Guild House 1964 - FONTE: https://www.claudejobin.com/architects-robert-venturi-denise-scott-brown/

Já entre as Arquitetas reconhecidas, estão Lina Bo Bardi, italiana naturalizada brasileira, a americana Jeanne Gang e iraquiana Zaha Haddid.

Lina bo Bardi mudou-se para São Paulo com o Pietro Maria Bardi. Em 1958 é convidada para dirigir o museu de arte moderna da Bahia onde projeta o restauro do Solar da Unhão para a sede do Museu. Voltando a São Paulo em 1966, retoma o projeto do MASP que, após sua inauguração em 1968, virá a ser um dos marcos mais icônico da arquitetura Brasileira.

Solar do Unhão, em Salvador, de 1964.- https://casaclaudia.abril.com.br/casas-apartamentos/5-edificios-para-entender-lina-bo-bardi/
Lina posa ao lado de cavalete com obra de Vincent van Gogh durante a construção do MASP – Lew Parrella - https://portaldisparada.com.br/cultura-e-ideologia/lina-bo-bardi-arquitetura-social/
Sesc Pompeia, de Lina Bo Bardi. Cortesia de The Graham Foundation - https://portaldisparada.com.br/cultura-e-ideologia/lina-bo-bardi-arquitetura-social/

O Sesc Pombeia é outra obra de destaque em São Paulo, onde a antiga indústria deu lugar a um diversificado Centro Cultural. Após sua morte em 1992 seu trabalho foi potencializado pela presença constante nas mídias e exposições, trazendo a tona temas e posições tornarem-se pauta do debate sobre cultura, meio-ambiente, patrimônio histórico e produção material da arquitetura e dos objetos.

Jeanne Gang enxergou a oportunidade de estabelecer um novo planejamento urbano na reconstrução de Chicago após o grande incêndio, explorando novos materiais como aço e vidro, buscando evitar acidentes como esse. Tem um olhar visionário e muito engajado quando alia a verticalização dos edifícios à sustentabilidade e as novas tecnologias como solução para o crescimento das metrópoles. Também uma maior discussão acerca de como as cidades deveriam crescer e qual é o papel da arquitetura nessa evolução. Não por acaso, ela projetou o primeiro arranha-céu do mundo. Para ela:

“Edifícios altos são essenciais para o futuro das cidades, cuja população cresce a uma incrível velocidade. Com bom desenho, é possível erguer torres humanizadas.”

Todos os trabalhos que Jeanne Gang e sua equipe fizeram estão relacionados ao desenvolvimento de comunidades mais fortes, materiais resistentes e obras sustentáveis.

https://www.architecture.org/news/chicago-under-construction/questions-for-an-architect-jeanne-gang/
Torre Aqua é o projeto mais importante da carreira de Jeanne Gang. Ele tem 242 metros, está localizado em Chicago e foi completado em 2010. - Fonte: https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetos/jeanne-gang/

E o que dizer do poder criativo de Zaha Hadid? Sua arquitetura não linear traz característica desconstrutivista, com curvas, formas e perspectivas, inspiradas sempre na natureza. Apesar de ter sido a única mulher a ter ganhado o prêmio Pritzker, em 2004, continuava segundo ela, a sofrer uma série de preconceitos. Tê um posicionamento polêmico quanto o papel feminino na sociedade sendo um exemplo para todas as mulheres que buscam um espaço no mercado no mundo da arquitetura e dos negócios:

“Sim, sou feminista porque acho todas as mulheres inteligentes, talentosas e duras. Acredito na habilidade feminina; e no poder e na independência femininas. Antes eu não gostava que me chamassem de arquiteta mulher. O importante é que sou arquiteta, o fato de ser mulher é uma informação secundária. Mas talvez isso tenha ajudado outras mulheres, inspirando-as a escolher uma profissão e fazer algo a respeito, especialmente em um campo considerado não apto para mulheres.” –Intervew Rússia, outubro de 2012.
“É um setor muito duro, dominado por homens, não só nos escritórios de arquitetura, mas também entre incorporadoras e construtores. Não se pode culpar só os homens. O problema reside na continuidade. A sociedade não está concebida para permitir às mulheres que voltem normalmente ao trabalho depois de terem tirado uma licença.” – The Observer, fevereiro de 2013.
Fonte: https://www.zaha-hadid.com/people/zaha-hadid/
Vitra Fire Station. Foto: Christian Richter - Fonte: https://www.zaha-hadid.com/architecture/vitra-fire-station-2/
Aeroporto internacional Beijing Daxing , 2012. Foto: Huflon+Crow - Fonte: https://www.zaha-hadid.com/architecture/beijing-new-airport-terminal-building/

Hoje vemos mais arquitetas atuando no mercado, porém isso não significa que estamos em pé de igualdade com os nossos colegas homens, ainda temos muito a conquistar, vencer desafios e continuar esse progresso iniciado pelas pioneiras.

O Brasil possui 144.089 arquitetos e urbanistas ativos e registrados no CAU. A maioria são mulheres, 62% (89.867), enquanto 38% são homens (54.222). Esta é uma predominância que tende a aumentar, já que a parcela feminina é bem maior entre os profissionais mais jovens.

Ainda que as mulheres estejam em maior número no mercado atual, o reconhecimento e equidade na profissão é uma luta que cabe a nossa geração conquistar.

Quais foram as mulheres que romperam a barreiras e abriram caminhos o caminho para estarmos onde estamos hoje?

E para você, há equidade entre gêneros no mercado de trabalho? Quais mulheres pioneiras você admira?


Fontes:

A Zaha https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetos/zaha-hadid/

http://44arquitetura.com.br/2016/04/frases-de-zaha-hadid/

Jeanne Gang https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetos/jeanne-gang/

https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetos/lina-bo-bardi/

www.arquitetasinvisíveis.com.br

https://www.vivadecora.com.br/pro/arquitetos/denise-scott-brown/

https://www.archdaily.com.br/br/890329/as-mulheres-esquecidas-da-bauhaus

https://www.modefica.com.br/mulheres-nas-artes-o-machismo-da-bauhaus-e-revolucao-textil-de-gunta-stolz/#.YEdqpp1KiUk

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